Educação ativa: Brincar pela criança vs Estar presente com a criança que brinca



Cheguei na Praça do Côco com meus filhos Luna (3 anos e 9 meses) e Leo (1 ano e 7 meses) na 3a feira por volta das dez da manhã. Não, eu não estava de férias. Minha esposa faz uma aula de dança das 10 as 11:30 toda terça feira e eu fico com as crianças. Ser consultor independente ajuda bastante a ter horários flexíveis e poder fazer esse tipo de coisa. Regiane é mãe em tempo integral, portanto é importante que ela tenha alguns momentos só pra ela e é o mínimo que eu posso fazer.
Bom, a Praça do Côco é um dos meus destinos favoritos. É uma praça pública com alguns brinquedos de madeira, com muita areia e com acesso a água. Vamos tanto lá que já deixamos no porta-mala do carro alguns utensílios indispensáveis para garantir a diversão. Entre os mais importantes, está uma bacia que uso para encher de água e colocar ao lado de onde as crianças decidiram brincar. Além da bacia, levamos um bule de verdade, um coador de café de verdade, potes de manteiga, colheres, pás, peneiras, copos e talheres.
As crianças ficam livres para decidir o que querem fazer. Dessa vez, após balançar um pouco, Luna foi brincar na areia. Leo preferiu ficar brincando em uma casa de madeira. Apesar dele já subir e descer sozinho da casinha, eu fico por perto apenas para oferecer apoio caso ele precise.
O fato que quero explorar hoje aconteceu quando Luna estava brincando de fazer comida com a lama criada a partir da areia e da água. Ela estava tranquila quando uma mãe chegou com seu filho de um ano e meio. Ela falava muito e dirigia cada ação do menino. “Gustavo, senta aqui, pega o baldinho, vamos fazer um bolinho.” Ela estava sentada há 2 metros de onde estávamos e começou ela mesma a fazer “bolinhos” com a areia. “Olha só o bolo em forma de golfinho. Vamos comer.” O filho ficou olhando a mãe fazer esse teatro, que confesso, eu também fazia antes de conhecer a Educação Ativa. Luna, que estava entretida há pelo menos 20 minutos, parou o que estava fazendo para ver o que estava acontecendo. Mesmo que as instruções não estavam sendo dirigidas a ela, aquilo quebrou seu fluxo de criação por alguns segundos.
O contato com a Educação Ativa, através da Margarita Valencia, educadora equatoriana que trabalhou por mais de dez anos na não-escola El Pesta no Equador, mudou minha vida. Eu achava que era um pai bem legal, especialmente pelo fato de trabalhar parte do tempo em casa e poder me dedicar aos meus filhos. Achava que não bater e não colocar de castigo já me garantiam o título de pai “diferenciado”. Que engano.
A Educação Ativa foi concebida no Equador pelo casal Rebecca e Mauricio Wild na medida em que criaram El Pesta, um jardim da infância diferente, no qual haviam ambientes preparados que as crianças poderiam utilizar livremente de acordo como sua vontade. Esses ambientes eram chamados preparados pois não continham perigos ativos e pois continham elementos adequados para atender as necessidades das crianças nessa faixa etária entre 3 e 6 anos. Sempre havia um adulto em cada ambiente zelando para que o espaço permitisse que as crianças estivessem relaxadas. Para isso, o próprio adulto deveria estar relaxado, presente ao que estava se passando em cada momento e principalmente sem diretividade. Ou seja, o adulto, diferente das escolas tradicionais não estava lá para dirigir as atividades das crianças, mas sim para apoiar a exploração livre e criativa do espaço.
Uma das coisas mais difíceis quando se embarca nessa jornada é o fato de nunca mais conseguir olhar para a relação de adultos e crianças da mesma maneira. Tive vontade de pedir para a mãe do Gustavo falar mais baixo ou não falar e deixar que seu filho, ao invés de ser um expectador das macaquices da mãe, fosse um ator e pudesse, de forma relaxada, brincar. Fiz uma pausa, respirei e tentei sentir o que estava acontecendo comigo. Era meu crítico interno que tinha aflorado e queria exigir que aquela mulher se comportasse para não prejudicar meu filho. Agir a partir desse lugar seria um engano. Não estaria servindo a vida e estaria reproduzindo o nosso atual modelo de julgamento (“Você está errada e eu certo!” e de individualismo (“Não prejudique os meus filhos!”). Decidi apenas observar o que estava acontecendo, ficando o mais conectado com o presente possível. A mãe continuou sua brincadeira. Luna voltou para o seu mundo pois acredito que agora ela já consegue sentir que é muito melhor ser criadora do que ser observadora de adultos.
E eu agora, no momento que estou escrevendo esse texto, sinto que é a hora certa para falar para a mãe do Gustavo e para outros pais e mães. Experimente levar seus filhos em ambientes preparados, e apenas observe. Ofereça sua presença e seu amor incondicional, mas não dirija a ação dos seus filhos. Relaxe e observe. Pode ser que eles demandem que você brinque com eles pois não estão acostumados a explorar sozinhos. Dê atenção, mas espere que eles dirijam a brincadeira. Não imponha o seu mundo de fantasias em cima deles.
Quando eu comecei a fazer isso, minha experiência de estar com meus filhos mudou. Eu passei a ficar 100% presente sem ter que ficar inventando brincadeiras para eles, sem ter que ficar incentivando a brincar nesse ou naquele brinquedo. Hoje, levá-los à Praça do Côco é um imenso prazer, pra mim e para eles.



Fonte: http://conexaopaisefilhos.com/2013/06/03/brincar-pela-crianca-vs-estar-presente-com-a-crianca-que-brinca/

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