Por que brincar é importante?

Texto super interessante sobre a importância do Brincar no desenvolvimento e aprendizagem das crianças. E muito mais: "Ou seja, em uma perspectiva que procura aliar o conhecimento em biologia evolutiva ao das neurociências, o brincar não se limitaria apenas a exercitar habilidades motoras, emocionais, sociais ou cognitivas, como é costume alegar em educação. Teria uma função ainda mais nobre: seria parte do próprio desenvolvimento humano."
Vamos agora fazer a leitura! 


 ‘Bolinha de sabão’, quadro do artista plástico Ivan Cruz. A brincadeira é fundamental para fomentar o pleno desenvolvimento da criança em seus múltiplos aspectos. (foto: Ludmila Guerra) 

Que brincar é importante não é uma novidade. As crianças brincam e mesmo outros filhotes de animais o fazem, principalmente se forem mamíferos, como nós. Mas é interessante, sobretudo para professores, refletir sobre o que é o brincar e o porquê de ele existir, buscando conhecer o que há de novo sobre esse tema e relacionar esses conhecimentos com as nossas práticas pedagógicas.
Há também outro interesse em saber mais sobre o brincar: juntar argumentos mais atuais e objetivos às vagas justificativas empregadas por nós, educadores, para defender a brincadeira na escola e garantir o direito e o espaço-tempo para que crianças vivam a infância.
Explicando melhor a questão: pergunte a qualquer colega professor de educação infantil ou das séries iniciais do ensino fundamental se brincar é importante e ele, com certeza, responderá que sim. Questione, no entanto, o porquê disso e a resposta, muito provavelmente, será vaga e, em certos casos, bem pouco fundamentada do ponto de vista científico.
As alegações mais frequentes que justificam o brincar são, por exemplo, o fato de ser “divertido” e “prazeroso” ou, ainda, de que serve para “gastar energia”. Insistindo por mais argumentos, talvez você obtenha aquele que alega ser a brincadeira “importante para o desenvolvimento”. A princípio, nada contra essas ideias, mas, analisadas friamente, elas revelam características importantes do brincar, não suficientes como explicações (as três primeiras) e que apenas se aproximam de maneira genérica e vaga de fazê-lo (a última).
Uma possível razão para isso é que nossos cursos de formação de professores dão pouquíssima importância os aspectos biológicos do desenvolvimento humano. Praticamente nada se discute neles, por exemplo, sobre o que há de mais atual em termos de pesquisa e hipóteses postuladas na biologia evolutiva ou nas neurociências para explicar o brincar.
No entanto, são justamente os dados e as ideias originários dessas áreas do conhecimento, pouco exploradas por educadores, que poderiam fortalecer a ideia de que, de fato, brincar é fundamental, além de apontar modos de torná-lo ainda mais eficaz. Mais bem embasados, certamente poderíamos combater com mais eficiência, por exemplo, a falsa ideia que ainda persiste entre muitos pais de que “escola boa é aquela que é puxada”, ou seja, a que desde cedo “prepara as crianças para o vestibular”, assoberbando-as de conhecimentos conceituais.  

O que há de novo no front

No livro A dinâmica da criação, já comentado aqui em texto anterior (leia 'Nem mágica, nem dom. Pedra a lapidar'), o psiquiatra inglês Anthony Storr lista várias teorias explicativas para o brincar, surgidas ao longo da história das ciências do comportamento e biológicas. O autor critica as ideias do neurologista austríaco Sigmund Freud, que relaciona o brincar à vaga ideia de realização do desejo e da fantasia e lhe atribui a mera função de fuga ou evasão da realidade, e apresenta outros argumentos, que lhe conferem razões biológicas, funcionais e evolutivas, e que procuram identificar na brincadeira o seu valor intrínseco para a sobrevivência.


 O psiquiatra inglês Anthony Storr lista várias explicações para o brincar, mas defende as razões biológicas, funcionais e evolutivas como os argumentos mais eficazes para identificar na brincadeira o seu valor intrínseco para a sobrevivência. A imagem mostra o quadro ‘Soltando Pipa IV’, de Ivan Cruz. (foto: Ludmila Guerra)

Do ponto de vista da biologia evolutiva, uma atividade como a brincadeira, presente em diferentes grupos animais e persistente, deve ser considerada adaptativa quando vital para a espécie. De alguma forma ela deve ampliar as possibilidades de sobrevivência e reprodução e servir à adaptação da espécie ao ambiente em que vive, tornando-se, por isso mesmo, persistente e até amplificada ao longo do processo evolutivo.
Considerando-se essa perspectiva, “evadir-se da realidade”, como defendia Freud, “divertir-se” ou “gastar energia supérflua” não seriam explicações boas o suficiente aos olhos da biologia evolutiva para justificar o brincar. Se o fossem, seriam contrasensos evolutivos, por não apresentar vantagens adaptativas significativas aos humanos e, ao contrário disso, até colocar em risco a sua sobrevivência.

De maneira diferente, outras possíveis explicações para o brincar, como explorar o ambiente e adquirir informação, exercitar habilidades motoras, manter o sistema nervoso de prontidão, simular padrões de comportamento agressivo e sexual, ritualizar impulsos e interagir socialmente, parecem ser, sob o ponto de vista evolutivo, mais convincentes.
Isso porque, em maior ou menor grau, elas se relacionam, direta ou indiretamente, com a necessidade que o ser humano tem de se desenvolver motora, emocional, social e cognitivamente, em interação constante com seus semelhantes e o ambiente em que se encontra. Em outras palavras, o brincar, nessa perspectiva, teria a função vital e adaptativa de fomentar o pleno desenvolvimento da criança em seus múltiplos e variados aspectos, sobretudo do ponto de vista social e cognitivo, e o faria estimulando a aprendizagem por meio das experiências que propicia.

A visão neurocientífica

Em uma espécie como a nossa, em que o desenvolvimento, sobretudo o do cérebro, demora a acontecer, o brincar ampliaria as oportunidades de convívio com os pares e de exploração do meio, fornecendo estímulos para que o cérebro humano possa se desenvolver mais plenamente. A forma como isso acontece é o que genericamente chamamos em educação de aprendizagem.
Ou seja, em uma perspectiva que procura aliar o conhecimento em biologia evolutiva ao das neurociências, o brincar não se limitaria apenas a exercitar habilidades motoras, emocionais, sociais ou cognitivas, como é costume alegar em educação. Teria uma função ainda mais nobre: seria parte do próprio desenvolvimento humano.
Por meio do brincar – e em estreita interação com o ambiente e seus semelhantes – a rede neural se ampliaria, novos caminhos neurais se formariam e distintas áreas do cérebro se tornariam interconectadas. A parte visível de todo esse processo seria o ganho em habilidades (motoras, emocionais, sociais e cognitivas) e os novos comportamentos observados ao longo da infância.
Há muitos dados e evidências que já corroboram essas ideias e eles vêm se intensificando, conforme aumentam as pesquisas em neurociências. Uma evidência elementar, no entanto, encontra-se no próprio tamanho do cérebro e no estado de desenvolvimento de suas diferentes áreas no nascimento. Ao nascer, nosso cérebro tem cerca de um quarto da massa de quando se tornará adulto e nem todas as suas áreas encontram-se plenamente desenvolvidas. Áreas fundamentais do córtex superior (neocórtex), relacionadas diretamente às habilidades cognitivas ou funções mentais superiores, tais como a atenção, a memória interpretativa, a linguagem e a abstração, entre outras, ainda estão pouco desenvolvidas.

A visão neurocientífica

Em uma espécie como a nossa, em que o desenvolvimento, sobretudo o do cérebro, demora a acontecer, o brincar ampliaria as oportunidades de convívio com os pares e de exploração do meio, fornecendo estímulos para que o cérebro humano possa se desenvolver mais plenamente. A forma como isso acontece é o que genericamente chamamos em educação de aprendizagem.
Ou seja, em uma perspectiva que procura aliar o conhecimento em biologia evolutiva ao das neurociências, o brincar não se limitaria apenas a exercitar habilidades motoras, emocionais, sociais ou cognitivas, como é costume alegar em educação. Teria uma função ainda mais nobre: seria parte do próprio desenvolvimento humano.
Por meio do brincar – e em estreita interação com o ambiente e seus semelhantes – a rede neural se ampliaria, novos caminhos neurais se formariam e distintas áreas do cérebro se tornariam interconectadas. A parte visível de todo esse processo seria o ganho em habilidades (motoras, emocionais, sociais e cognitivas) e os novos comportamentos observados ao longo da infância.
Há muitos dados e evidências que já corroboram essas ideias e eles vêm se intensificando, conforme aumentam as pesquisas em neurociências. Uma evidência elementar, no entanto, encontra-se no próprio tamanho do cérebro e no estado de desenvolvimento de suas diferentes áreas no nascimento. Ao nascer, nosso cérebro tem cerca de um quarto da massa de quando se tornará adulto e nem todas as suas áreas encontram-se plenamente desenvolvidas. Áreas fundamentais do córtex superior (neocórtex), relacionadas diretamente às habilidades cognitivas ou funções mentais superiores, tais como a atenção, a memória interpretativa, a linguagem e a abstração, entre outras, ainda estão pouco desenvolvidas.

Conforme o cérebro se desenvolve e a rede neural se amplia, no entanto, interligações são formadas entre os centros inferiores (o sistema límbico) e os centros superiores (o neocórtex), permitindo o armazenamento e o processamento de informações também por essas áreas do cérebro. As memórias poderiam, então, ser também armazenadas e processadas aí e se tornariam, portanto, interpretativas e conscientes.
Segundo a visão neurocientífica, brincar teria um papel fundamental nesse e em outros importantes processos cerebrais. Basicamente, ao propiciar muitas e variadas experiências novas, o brincar provocaria a formação e consolidação de importantes circuitos neurais, tornando interligadas áreas do cérebro relacionadas a distintas competências ou conjuntos de habilidades.
Entre os circuitos neurais formados ou fortalecidos pelo brincar, estariam, por exemplo, aqueles que interligam o sistema límbico ao neocórtex, o que disponibilizaria aos humanos um intercâmbio ainda mais eficiente entre o que costumamos chamar de maneira simplificada de emoção e razão. Seria graças ao brincar, portanto, que a nossa tomada de decisões, antes restrita à ação do sistema límbico ou sob comando das emoções, poderia passar a contar com o apoio do neocórtex e valer-se também de habilidades racionais.

Leia também:
GOLEMAN, D. O cérebro e a inteligência emocional: novas perspectivas. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.
OLIVEIRA, V.B. DE. O brincar e a criança do nascimento aos seis anos. Rio de Janeiro: Vozes, 2010 (10ª edição).

Vera Rita da Costa
Ciência Hoje/ SP


Fonte: http://cienciahoje.uol.com.br/alo-professor/intervalo/2013/10/por-que-brincar-e-importante

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