Projeto “A fada do dente” (Pesquisa Pró- Autistas e suas famílias)


Doar é um ato de amor:


A forma mais eficiente de estudar uma doença, alteração, ou qualquer outro distúrbio é entrando em contato direto com ele. Para estudar o autismo, precisamos dos pacientes, pois sem eles, não há o que estudar. Por isso, os pacientes, suas famílias, médicos, políticos e nós cientistas, formamos um time. Sem qualquer um dos componentes do time, o jogo fica muito mais complicado.

Existem tantas coisas que ainda não conhecemos sobre o autismo. Recentemente, os cientistas tem confirmado que a contribuição genética do autismo é tão importante quanto variável, ou seja, cada paciente carrega em seu genoma uma nova informação que pode fornecer pistas importantes sobre o autismo. Isso quer dizer que precisamos aprofundar nossos estudos, até encontrar pistas que possam explicar por que pacientes diferentes geneticamente apresentam os sintomas clínicos semelhantes. A resposta está, muito provavelmente, em como a genética afeta as células do cérebro.

As células que estão no nosso cérebro são chamadas de neurônios, portanto seria interessante estudar os neurônios do cérebro dos pacientes autistas para saber como funcionam. O que será que essas células “falam” umas para as outras? Como será que é a transmissão dos impulsos nervosos entre esses neurônios? O que será que as células desses vários pacientes com o mesmo comportamento têm em comum? Para esses estudos, cientistas teriam que usar o próprio cérebro humano. Num ato de generosidade, algumas famílias doaram o cérebro de seus entes queridos que se foram, e tudo que se sabia sobre o cérebro de autistas até hoje foi a partir desse material. Porém, as células que vieram desses pacientes não estavam mais vivas e por isso, não havia como descobrir o que “falavam” umas para as outras.

Hum... então quer dizer que teríamos que usar células vivas? Não podemos obter neurônios vivos de um paciente? Até daria, mas para isso seria necessário fazer uma biópsia no cérebro, o que seria antiético e muito difícil de encontrar voluntários. Bem, temos uma boa notícia: cientistas conseguiram desenvolver uma forma de obter neurônios a partir das células periféricas, como as células da pele, por exemplo. É como se elas entrassem numa máquina do tempo e voltassem a ser células-tronco, presentes num embrião, ou seja, as células que podem virar qualquer outro tipo celular presente no nosso corpo. A partir daí, essas células são colocadas em condições especiais e estimuladas a se especializarem em neurônios. Agora sim é possível obter células vivas e mimetizar o que acontece no cérebro do autista.

Apesar da ótima notícia, ainda era preciso realizar uma biópsia para retirar um pedacinho de pele do paciente. Mesmo sendo um procedimento simples e rápido, a biópsia ainda causa um certo desconforto ao paciente, necessitando uma anestesia local e uns pontinhos. Para evitar o desconforto, inventamos um jeito mais simples, indolor, e até divertido: passamos a usar células retiradas da polpa dentária vindas junto com o dente-de-leite das crianças.

Assim surgiu o projeto “A fada do dente”. O recheio do dente de leite contém células da polpa dentária. Quando o dente cai, geralmente ainda há células intactas no “miolo” do dente, que estão vivas. Essas células podem ser cultivadas, e colocadas na “máquina do tempo” para virarem células-tronco embrionárias. A partir daí, são transformadas em neurônios para pesquisa. Nosso estudo foi desenhado para comparar neurônios derivados de crianças com autismo aos de indivíduos que não se encontram dentro do espectro autista. Com essa comparação é possível encontrar diferenças e descobrir quais contribuem para o autismo. Esse estudo é fundamental para que possamos conhecer como os neurônios se comportam em nível celular e molecular. Além disso, essa tecnologia permite testar medicamentos diretamente nos neurônios, dentro das plaquinhas de laboratório, sem causar nenhum transtorno ou efeito indesejável ao paciente, pois tudo está acontecendo fora do organismo. Por fim, se cada paciente for realmente diferente um do outro, esperamos descobrir quais são as vias moleculares comuns entre todos eles na esperança de obter medicamentos mais abrangentes.

O projeto “A fada do dente” está sendo desenvolvido em parceria entre a Universidade de São Paulo (USP) e a Universidade da Califórnia, em San Diego (UCSD). Pacientes brasileiros e americanos estão doando seus dentinhos de leite para esse estudo. No momento, estamos estudando crianças dentro do espectro caracterizadas como autistas clássicos. Talvez por uma razão cultural, a contribuição americana tem sido maior do que a brasileira. Esperamos reverter isso através da divulgação da pesquisa, como está sendo feito aqui. Para tanto, só podemos contar realmente com sua contribuição em divulgar o estudo. Para fazer uma doação, entre em contato conosco, através do email projetoafadadodente@yahoo.com.br . Nós mandaremos a você um kit para a coleta do dentinho e todas as informações necessárias para fazer a doação. Doar material para a pesquisa é um ato humanitário e altruísta. Doar é um ato de amor.


Por Patrícia Braga e Alysson Muotri

Patrícia Cristina Baleeiro Beltrão Braga, PhD, é bióloga, professora doutora da Escola de Artes Ciências e Humanidades (EACH), da Universidade de São Paulo (USP).

Alysson Renato Muotri é neurocientista, biólogo molecular formado pela Unicamp com doutorado em genética pela USP. Fez pós-doutoramento em Neurociência e Célular-tronco no Instituto Salk de pesquisas biológicas (EUA). Hoje é professor da faculdade de medicina da Universidade da Califórnia em San Diego (EUA).

Fonte: http://www.revistaautismo.com.br/edicao-2/doar-e-um-ato-de-amor 
Outras informações: http://universoautismo.blogspot.com.br/2012/04/projeto-fada-do-dente.html

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