Cuidar do idoso: desafio possível











Farah Rejenne Corrêa Mendes
pesquisadora mentora do Portal do Envelhecimento.
http://www.portaldoenvelhecimento.org.br/pforum/cid7.htm




Cuidar do idoso recentemente deixou de ser uma responsabilidade individual e privada, tornando-se um movimento público. Com o avanço do envelhecimento populacional, cria-se uma nova realidade demográfica que exige novas ações, posturas e respostas. O objetivo deixa de ser apenas prolongar a vida, mas, principalmente manter a independência, autonomia e bem-estar de cada sujeito o maior tempo possível. Tornam-se necessários conhecimentos específicos, responsabilidade e firmamento de valores como justiça e igualdade na construção e atuação da nova realidade social.



Presente em todas as etapas da vida de forma direta ou indireta, o cuidar pode trazer na relação estabelecida diversos sentimentos desde o amor, a cumplicidade, o respeito, a troca até a piedade e a obrigação.



Na relação do cuidar estabelecida com a pessoa idosa, seja pelo familiar, leigo ou profissional deve-se considerar que nesse ato se conjugam ações e atitudes de troca, acolhimento, proteção, atenção, paciência e respeito. Respeito aos desejos, gostos, personalidade, experiências e individualidade, que caracterizam o ser humano em sua totalidade, sua vida, sua existência.



É sobre esse aspecto que relato uma experiência profissional. Em atendimento domiciliário, um membro da equipe dirigiu-se a mim para falar do caso clínico de uma paciente, concluindo que necessitava de terapia ocupacional, pois a mesma estava sem fazer nada. Como terapeuta ocupacional, o discurso em primeira instância, causou-me indignação, mas logo percebi que era a oportunidade de discutir a questão do cuidar e do fazer. Falar o que realmente é necessário e o que está por trás da reabilitação não-medicamentosa.



Era o momento de falar que o fazer e o não-fazer poderia ser opcional ou não. Que conhecer o paciente, a sua história de vida era imprescindível para alcançá-lo e se obter respostas positivas na sua recuperação.



Acreditando que o idoso pode estar doente, com limitações, com a independência e autonomia comprometidas, mas que por trás de tudo isso ele é um ser de vontades. E que o desejo deve alcançado, sempre que possível e respeitado.



Envelhecer não significa doença ou dependência. No entanto, a longevidade traz como conseqüência o aumento da freqüência das doenças crônicas e degenerativas e o crescimento de idosos com limitações e incapacidades.



E assim, como os profissionais, o ambiente e a família também devem estar preparados.



O ambiente - Considerando-se o ambiente domiciliar como uma fonte potencial de saúde, conforto e bem-estar, e que a mudança do idoso de seu espaço natural torna-se uma situação traumática, acredita-se que, quanto mais o idoso puder viver nesse meio, permanecendo em seu lugar, melhor será a sua recuperação. Sendo o ambiente preparado e apropriado de acordo com as necessidades exigidas pelo quadro clínico e sempre que possível, considerados os desejos do idoso, de forma que ele possa sentir-se integrado e pertencente a um meio que se destina prioritariamente a lhe oferecer conforto, preservar-lhe a independência e intimidade, apesar das limitações.



A família - A família, também necessita de preparo e adaptações para o enfrentamento da nova situação estabelecida. Mudanças diversas, desejadas, indesejadas ou impostas, como as trocas de papéis sociais, alterações financeiras e afetivas, execuções de novas tarefas (pessoais, domésticas e sociais) e a incumbência de um membro da família de tornar-se um cuidador.



O suporte e acompanhamento de equipes de saúde e serviço social são essenciais para a reorganização da dinâmica familiar. A mesma, necessita de orientações básicas e emergenciais de como proceder com o idoso por meio de visitas periódicas de equipe especializada e interdisciplinar (médicos, enfermeiros, terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogos, fisioterapeutas e outros), treinada e capacitada para agir eficazmente nesse contexto.



Cuidar do idoso em casa é possível e deve ser estimulado. Todavia, a indicação desse tipo de modalidade de assistência requer algumas considerações: o quadro clínico do idoso, o consenso familiar e a interação entre paciente, família e profissionais, avaliando-se, ainda, as condições estruturais da família, bem como, suas condições físicas, financeiras, afetivas e emocionais.



O envelhecimento populacional brasileiro requer mudanças sociais e novos enfoques de assistência. Para que isso ocorra, são necessárias políticas públicas que contemplem a prevenção e promoção da saúde, a qualificação de profissionais nas áreas de gerontologia e geriatria e a propagação do conhecimento específico, ou seja, ações que proporcionem condições sócio-econômicas, ambientais e educacionais para o bem-estar dos idosos dependentes, independentes e suas famílias.



Grandes desafios a serem enfrentados. Mas, todos possíveis de serem caminhados.

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